terça-feira, 21 de novembro de 2017


Contradições necessárias

A superioridade divina a toda compreensão, a sua extraordinária grandeza torna-o ao mesmo tempo conhecido e desconhecido para nós humanos. Não sabemos fazer outra coisa a não ser nomear Deus com um único nome, Deus, porque é o verdadeiro nome de Deus. Exclamamos, "Deus grande", "Deus bom" etc, mas há mais, e talvez seja esta a parte mais nobre da nossa completa ignorância. Já dizia o Pseudo Dionísio séc. V: "(...) é muito melhor dizer aquilo que Deus não é, do que aquilo que é", em outras palavras, Deus é imóvel, incorruptível, não-gerado, não-causado. "Deus está além de toda a nossa compreensão, embora a sensibilidade humana está em grau de percebe-lo e calculá-lo" escreveu Tertuliano séc. II, creio que isso se dá pelas ideias que temos de grandeza e de bondade. Mas, entretanto, devido a nulidade humana aos homens é, de certa forma impossível compreender aquilo que não lhe é próprio, pois nós nos movemos como expressou Heráclito, logo não temos acesso ao imóvel, "com a corrupção morre o corpo" escreveu Agostinho, logo não temos acesso ao incorruptível, gerados fomos de causalidades, logo não nos é possível, pelo menos na esfera humana e fora da fé, ter acesso ao não-gerado e não-causado.

Rodrigo Venceslau

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A identidade dos cristãos


Ao meu ver estamos vivendo um momento de grande instabilidade cristã, encontram-se destruídos aqueles antigos valores fundamentais  da vida espiritual do evangelho. Com efeito, é uma época de grande crise de identidade e grande confusão. Escândalos, industria da fé, abuso de poder, ausência de amor, egocentrismo (antropocentrismo) que coloca Deus a serviço dos homens na tentativa de promover um "paraíso" na terra, entre outras coisas. A carta a Diogneto é por si só atualíssima, capaz de abordar com grande propriedade essas aporias. Espero que tenham uma ótima leitura.           

A Carta a Diogneto, transmitida com o nome de Justino, é considerada pelos estudiosos como não autêntica. Todavia é uma pequena joia da literatura cristã, tanto pela profundidade espiritual do conteúdo, como pelo beleza estilística e retórica da forma, mas também pela modernidade e pela atualidade de muitos temas discutidos em particular pela dimensão política da vida cristã.

A identidade dos cristãos

Os cristãos, com efeito, não se diferenciam dos outros homens nem pelo território nem pela língua ou costumes. Não habitam em cidades próprias nem falam uma linguagem inusitada; a vida que levam nada tem de estranho. Sua doutrina não é fruto de considerações e elucubrações de pessoas curiosas, nem se apresentam como promotores, como alguns, de alguma teoria humana. Habitando nas cidades gregas e bárbaras, como coube a cada um, e conformando-se com os costumes locais no que se refere ao vestuário, a alimentação e ao resto da vida cotidiana, demonstram o caráter admirável e extraordinário, no dizer de todos, de seu sistema de vida. Habitam na própria pátria, mas como estrangeiros, participam de tudo como cidadãos, e tudo suportam como forasteiros, qualquer terra estrangeira é sua pátria e qualquer pátria é terra estrangeira.

Casam-se como todos, geram filhos, mas não expõem os recém-nascidos. Tem em comum a mesa, mas não o leito. Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram sobre a terra, mas são cidadãos do céu. Obedecem às leis estabelecidas, e com sua vida superam as leis. Amam a todos e são perseguidos por todos. Não são conhecidos, e assim mesmo são condenados; são mortos, e todavia são vivificados. São pobres e enriquecem a multos; são carentes de tudo e tem abundância de tudo. São desprezados, mas no desprezo adquirem glória; são xingados e ao mesmo tempo se dá testemunho de sua justiça. São ultrajados e bendizem; são insultados e, ao contrário, honram. Embora realizem o bem, são punidos como malfeitores; embora punidos, se alegram, como se recebessem a vida.

(...)

Enfim, para dizer brevemente, os cristãos desenvolvem no mundo a mesma função da alma no corpo. A alma está espalhada em todos os membros do corpo; também os cristãos estão espalhados pelas cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não pertence ao corpo; também os cristãos habitam no mundo, mas não pertencem ao mundo. A alma invisível está aprisionada no corpo visível; os cristãos, estando no mundo, são visíveis, mas o culto que dirigem a Deus permanece invisível. A carne odeia a alma e a combate, embora sem receber nenhuma injustiça, porque a impede de abandonar-se aos prazeres; também os cristãos são odiados pelo mundo, embora não lhe façam nenhum mal, porque se opõem aos prazeres. A alma ama a carne e os membros que a odeiam, assim como os cristãos amam quem os odeia. A alma, que também sustenta o corpo, está presa neste; também os cristãos, embora sejam o apoio do mundo, são aprisionados neste como em um cárcere. A alma imortal habita em uma morada mortal; também os cristãos vivem como estrangeiros entre aquilo que é corruptível, enquanto esperam a incorruptibilidade celeste. Com as mortificações no comer e no beber, a alma se torna melhor; os cristãos, embora perseguidos, a cada dia se tornam mais numerosos. Deus lhes reservou um lugar todo sublime, e a eles não é licito abandoná-lo.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017


Fé e Razão – Bíblia e Filosofia

“Os livros do Antigo Testamento foram (redigidos a partir de aproximadamente 1300 a. C. até 100 a. C., no oriente, ou seja, bem antes de Tales de Mileto séc. VII, VI a.C. e, portanto, antes de pelo menos a sistematização da filosofia grega no ocidente,); entretanto, os primeiros livros baseiam-se em uma tradição oral antiquíssima.” (Reale II, p. 4)


Levando em consideração esse registro histórico confirmado, temos que, de certa forma, o cristianismo é mais antigo que a própria filosofia, pois, o pentateuco, tantos os registros proféticos, quanto os registros metafóricos apontavam para o cordeiro de Deus e, portanto, para Jesus Cristo, o filho de Deus, o "logos".

Há uma certa preocupação, pois as filosofias gregas de certa forma se coincidem com o cristianismo do séc. I d.C. e, de certa forma, houve até uma confluência entre um ponto e outro, mas por mais coincidência que possa haver, parece estar claro que, o plano divino de salvação proposto nos evangelhos e nas cartas apostólicas seja bem antes da filosofia grega e sem nenhuma coincidência e encontro, pois, enquanto a filosofia tem início com Tales 700,600 a.C. no ocidente, o pentateuco, a lei mosaica, e de certa forma o cristianismo data 1300 a.C. no oriente. Acrescento que, enquanto a filosofia no ocidente, se deu por meio da razão, o pentateuco se deu por meio da revelação e da fé no oriente.

Fé, diria Kierkegaard é "um salto no escuro" diante das indeterminações e do profundo "abismo" que é o ser e o mundo. Não podemos atravessar porque não há como construir com materiais racionais uma ponte que possa transpor esse abismo, então, uma das únicas formas é salta-lo, ou seja, movidos pela fé que não nos dá qualquer certeza. Abraão (personagem do pentateuco – descrito por Moisés) é um excelente paradigma, pois, ele não foi aquele que apenas aceitou aquilo que não podia se compreender, mas aceitou também aquilo que se podia compreender como absurdo, portanto ele aceitou o absurdo. Ele, não é alguém que se coloca apenas diante do ininteligível, mas é também aquele que se coloca diante do absurdo.

Rodrigo Venceslau

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Reflexões sobre o Deus grego e o Deus cristão



Reflexões sobre o Deus grego e o Deus cristão. Aristóteles como grande sistematizador da história do pensamento grego e, portanto, ocidental em sua "filosofia primeira" ou metafísica como queira dá novas perspectivas às aporias acerca do ser que seus antecessores chamaram de Deus. Para ele não é a água como queria Tales, nem o fogo como propos Heráclito, o obscuro. Aristóteles, de certa forma, abandona as concepções platônicas e teológicas que se alimentava mais de fé do que de "lógos" e, para ele, Deus é mais que o "sumo bem", ou o Demiurgo de Platão. Deus é Motor Imóvel, que sem se mover atrai para si as coisas como o ser amado atrai o amante sem precisar fazer nada. Sendo bem superficial, o Deus de Aristóteles e, portanto, o Deus grego, com efeito, ele não se move em direção às coisas. Ele não quer e não precisa se relacionar com os homens, ele não ama, ele nunca ama, é apenas objeto de amor do amante.

Paradoxalmente, o Deus cristão ama, ele sempre ama, o homem é o seu objeto de amor. É entendível quando Paulo (apóstolo) prega seu sermão ao "deus desconhecido" no Areopágo os gregos que na ocasião estavam presentes, alguns riram dele, outros disseram "queremos ouvir sobre isso em outra ocasião" e, finalmente, alguns acreditaram nele. O fato de alguns na ocasião não acreditar e corresponder com um certo sarcasmo se dá por motivos óbvio, para um grego era inadmissível um Deus que se preocupasse com os seres humanos, que buscasse se relacionar com os homens, o absurdo chega ao seu ápice quando Paulo diz: "Deus se fez carne, morreu e ressuscitou". Tenho fortes razões para crer porque em outra ocasião Paulo escreveu, dessa vez aos Romanos, que a palavra da cruz era "loucura para os gregos", mas para aqueles que cressem, tanto judeus como gregos, Cristo, (o lógos encarnado), concluiu Paulo é o "poder de Deus, e sabedoria de Deus." Essa será portanto, a matriz de todo pensamento filosófico cristão do período medieval e, portanto, meu próximo objeto de estudo.

Rodrigo Venceslau