sábado, 23 de abril de 2016

ECLETISMO DE CÍCERO PARA UMA SOCIEDADE DECADENTE

Introdução

            A busca pela Ataraxia não para! Encontrar respostas para as importantes questões filosóficas existentes no mundo é um desafio permanente. A maioria desses problemas tiram a paz, e as indagações vagueiam pelas crenças, pelos mitos, e até mesmo pelos caos, tentando dar sentido para a história humana. O que é o homem? Um ser livre? Ele é totalmente responsável por suas escolhas ou segue como, um ser insignificante, um determinismo em suas mais variadas decisões dentro de uma lei natural? Na esfera social e política, qual é o papel do homem? A virtude é a mais essencial importância para prática da vida privada e pública? Qual é o padrão ético da racionalidade nessas circunstâncias? Esses são alguns dos mais variados problemas que permeiam a raça humana desde sempre, que dizem respeito ao destino dos homens. Para tratar sobre esses assuntos os mais brilhantes pensadores nos deixaram um legado que não se pode medir. Verdadeiras riquezas que marcou para sempre a história do ocidente.
Começando pela Gênesis do pensamento ocidental, o gênio helênico, passando pela era clássica: onde foram propostas várias teorias e conceitos, como o mundo das ideias, o conceito de ser, a concepção do Uno enfim, tudo para dar uma explicação transcendental à vida humana. Logo os estudos se encaminharam para as concepções mais naturalistas com as escolas da era helenística, sob forte influência de Platão, Sócrates e Aristóteles, que impôs responsabilidades aos homens ligadas a sua racionalidade. É um período onde as virtudes são extremamente importantes para que se inicie a longa e tão sonhada estrada à “tranquilidade da alma”. São justamente estas virtudes que Marco Túlio Cícero, em latim Marcus Tullius, propõe em suas obras, no período imperial, no momento mais critico da republica romana, período de perturbações, traições, e conspirações, o ecletismo de Cícero não é um pensamento totalmente original, ele pega de cada escola “migalhas” de verdades e se estabelece para além das divergências constituindo assim uma nova forma de pensar.



A vida e o legado de Cícero

            É importante passar pela vida e obras de Cícero para entender o pensamento ciceroniano e mostrar que o autor não está desconectado da realidade, e acima de tudo compreender historicamente e filosoficamente quais foram as suas influencias, das quais cito de forma panorâmica acima e aqui poderemos ver com algumas riquezas de detalhes.

A vida

Segundo Coneglian (2012, p. 42,43 apud HARMSEN; PEREIRA MELO; GIBSON, 1959, 2008, 2010) Marco Túlio Cícero nasceu em, 03 de janeiro de 106 a.C., em Arpino, cidade que estava localizada a 100 quilômetros de Roma, filho de aristocratas da ordem equestre viveu na cidade de Arpino nos finais do século II e princípio do século I a.C, os cidadãos desse pequeno município a principio não tiveram o reconhecimento da sua cidadania romana, o que incomodou grandemente Cícero, isso só ocorreu no ano de 188 a.C., o reconhecimento pela sociedade romana definiu o futuro de Cícero como pensador romano.
Por não ser do grande centro de Roma, sua família tinham hábitos rústicos e simples, e conservavam o tradicional respeito pela memória e as práticas virtuosas romanas ancestrais dos antepassados, o chamado Mos Maiorum (“costume dos antepassados”), partindo desse principio entendemos que Cícero era por educação um conservador, estudou direito civil, foi discípulo de Fedro, o epicurista, em Roma no ano de 91 a.C.. Em 79 a.C., Cícero segue o exemplo de muitos jovens romanos ricos ele se ausenta de Roma e passa por alguns anos no ócio contemplativo na ilha de Rodes, na Grécia.

Em 79, passa seis meses em Atenas, a estudar com Antíoco de Ascalão, adversário de Fílon e chefe da Academia, cujo ensino se esforça para conciliar Platão e Aristóteles com os Estóicos. Freqüenta ao mesmo tempo as escolas epicuristas, levado pelo seu amigo Ático, aí ouve de novo Fedro e escuta Zenão de Sídon. Em Rodes, é discípulo do rhetor Mólon e ouve Posidônio. Difícil seria pedir uma formação filosófica mais variada para este homo novus que se dedicou a esse estudo entre os dezoito e os vinte e oito anos e nunca mais o abandonou de todo. (PEREIRA, 2002, p. 128)

Foram então esses ensinamentos que definiram o estilo ciceroniano nos anos vindouros e por toda a sua vida. Mesmo sendo um homo novus[1] (homem novo). Com muita dedicação e persistência Cícero, foi um filósofo, orador, escritor, advogado e político romano, visto como sendo uma das mentes mais versáteis e uma das figuras mais brilhantes da Roma antiga. Consta sobre a sua morte que, na praia de Caieta, onde possuía um domínio, Cícero estava sendo carregado por seus criados numa liteira[2] perto do mar, para se refazer de suas aflições, quando foi alcançado pelos soldados a mando de Marco Antonio, que o assassinaram em 07 de dezembro de 43 a.C.
A morte apenas não foi o fim do castigo, pois, suas mãos e sua cabeça foram decepados para serem expostos na Rostra[3] em frente ao Fórum Romano, para servir de alerta a qualquer outro que porventura tentasse desafiar o império. Talvez por ter sido um veemente defensor da República e das virtudes para implantação da mesma, ideias contrarias a de seus inimigos, ele foi a única vitima do triunvirato a ser exposta dessa maneira. Contudo há absoluta concordância entre a filosofia de Cícero e a maneira como ele se portou na hora da sua morte. Consta que o próprio Cícero estendeu corajosamente a cabeça a seu carrasco, ao mesmo tempo em que pronunciava estas palavras: “Morra eu na pátria que tantas vezes salvei”. Contava Cícero 63 anos quando morreu, deixando imenso conteúdo textual, filosófico e moral para as gerações vindouras.

O legado

Segundo a obra Os Pensadores (1985, p. 8-10, 17-23). Novas formas de pensar foram impostas ao mundo grego, o cidadão helênico deixa a polis, que conheceu na democracia, conhecimento este que preparava o homem para o exercício da vida política (pensamento platônico). Ao se afastar das preocupações políticas as preocupações agora ficam centralizadas no interior do homem. A filosofia passa ater uma nova característica, pois, agora ela começa a elaborar normas e condutas “universais” para orientar a consciência dos homens. “(...) o problema ético torna-se o centro da especulação de diferentes correntes filosóficas.” As éticas helenísticas se propõem a encontrar o bem no interior dos homens, as virtudes que podem de alguma maneira trazer a sabedoria plena e consequentemente a serenidade da alma, se a Ataraxia for plenamente encontrada pode se dizer então que o individuo chegou ao estado de realização total.
As buscas não param por ai, deixar de lado os conceitos metafísicos é apenas o começo da caminhada, esse, digamos, “novo” caminho traçado pelas escolas helenísticas para encontrar à serenidade interior, parte de uma ideia totalmente racionalista. Ao contrario do propunha a era clássica, os epicuristas e estóicos, “fazem da ciência sobre a natureza das coisas a base para suas construções morais”, e cada uma das correntes helenísticas, tinham uma forma diferente, mas sobre tudo racional de propor a busca pela “tranquilidade da alma”, vejamos alguns de seus conceitos:

·         O cinismo: a felicidade pode ser “não possuir nada que possa ser perdido.” Essa filosofia de vida, coincide com a "liberdade": quanto mais se eliminam as necessidades supérfluas, mais se é livre. Portanto feliz é não ser escravo das paixões e prazeres do mundo;
·         Os epicuristas e o “jardim”: a exposição da vida acarretará as perturbações da alma. Para os epicuristas, a discrição total é uma blindagem da alma. Quanto menos se aparece mais livre estará das mazelas do mundo;
·         O estoicismo: uma das características é que o sábio saberá ler as representações do mundo (phantasia). Assim a felicidade se consistira em estar de acordo com a razão, ou seja, de acordo com a natureza;
·         O ceticismo: para ser feliz descartem a ideia da física e da lógica. Suspendam o juízo. Para o ceticismo acadêmico ao suspender o juízo a verdade é impossível ser achada. Para os pirrônicos mesmo suspendendo o juízo continuam a procura da verdade.

Percebemos então na medida em que estudamos quanto mais próximo estivermos do estoicismo de origem, mais veremos uma tendência socrática com uma pitada de cinismo.  De igual modo, quanto mais nos afastamos do estoicismo de origem, mais eclética e neoplatônica ela fica. É justamente nesse ultimo momento que surge então o ecletismo de Cícero, mais uma das filosofias autônomas, despregadas do tronco original, da antiga sabedoria, mais um novo rumo que tomara o conhecimento. Para Reale na História da Filosofia (2003, p. 307), a mesma importância que Filon e Antioco tiveram ao representar o ecletismo na Grécia, Cicero teve como representante do ecletismo em Roma. Ele deixa um importante legado de numerosas obras filosóficas que foram escritas por ele no ócio contemplativo e final da sua vida.

Em 64 a.C., escreveu os Paradoxa Stoicorum; em 45 a.C., os Academica, que nos chegaram só parcialmente. De 45 a.C. C também o De finibus bonorum et malorum. Em 44 a.C. foram publicadas as Tusculanae disputationes e o De natura deorum; ainda em 44 a.C. foi escrito o De officiis. A estas obras se agregam ainda: De fato, De divinatione, Cato maior de senectute e Laelius de amicitia, e também as obras politicas De re publica e De legibus. Do De re publica chegaram-nos os primeiros dois livros incompletos, fragmentos do 111, do IV, do V e grande parte do livro VI, que ainda na antiguidade teve vida authoma, sob o titulo de Somnium Scipionis. (REALE, 2003, p. 307).



Consta também que Cícero chegou a ser influenciado e contemporâneo de Lucrécio, e acredita-se que ele chegou a publicar a obra (Sobre a Natureza), obra do poeta Lucrécio. Cícero ao longo de sua vida desenvolveu uma boa amizade e se tornou discípulo de epicuristas, estóicos, peripatéticos, e acadêmicos. Dessa forma então ele extrai de cada escola algumas ideias e compõe suas obras, eis o motivo do conceito ecletismo, que se tornou importante pela criação de um vocabulário filosófico latino. Apesar de o latim ter sido uma língua de uso corrente e pobre semanticamente, Cícero a inaugura como uma língua filosófica e nela publica basicamente todas as suas obras. E é assim que a filosofia grega se insere na cultura romana, e depois em todo o ocidente.

“Era uma vez um sonho chamado Roma”[4] sua História e Decadência

No apogeu de seu poder, o império romano era vasto, a população mundial da época vivia e morria sobre a lei e o domínio dos césares. Roma vivia uma contradição de realidades, por um lado segundo Monteagudo (2002, p. 54 apud CONSTANT, 1985) esses foram um dos períodos da história humana particularmente fascinante, pois, foram de fundamental importância o brilho e os valores deixados para a posteridade. É o momento que marca o auge da República Romana, o estabelecimento do Império, tendo como imperador Óctavio Augusto Cesar em 27 a.C. Historicamente a Terceira Guerra Punica em 146 a.C. representou o fim de toda força capaz de desafiar Roma em todo o mundo. Por outro lado, a história marca também outra realidade, a queda de Roma, ela se esfacelava, a tão sonhada Roma já não era mais a mesma, os problemas políticos e sociais a cercavam como um leão embravecido na arena, os espetáculos no coliseu de certa maneira acalmava os ânimos populares, que se distraiam enquanto o sangue jorrava das vitimas do entretenimento. Era o fim da República para a tristeza daqueles que viam nela a esperança de um governo justo e virtuoso. De maneira que sobrepujou definitivamente a “liberdade antiga”.
            É nesse solo de incertezas que Cícero de forma inspiradora, e com um tom de esperança refaz o caminho para a busca da Ataraxia, em suas mais diversas obras carregadas com um forte conteúdo moral e filosófico adquiridos pela cultura grega e pela educação romana que certamente recebeu, ele tem intuições felizes e agudas sobre os problemas particulares, e de forma especial se dedica nas questões morais. Sendo assim para se conseguir a serenidade da alma, o autodomínio, objetivo de toda reflexão filosófica, a filosofia se divide e articulam em três partes:
1.    Lógica: permitira distinguir quais as formas de conhecimento são verdadeiras e quais são as falsas;
2.    Física: mostra a verdadeira estrutura na qual está inserida a realidade humana;
3.    Ética: a chave para abrir as portas da felicidade.

Ecletismo de Cícero para uma Sociedade Decadente

            A professora de Sá[5] (2014, p. 146, 147 apud HOWATSON; OLLERO; ABBAGNANO, 1989, 1979, 2007), esclarece que após a grande campanha de extensão territorial romana e domínio da Macedônia, a Grécia, e Ásia Menor, passaram então a ter contato com a literatura, arte e toda filosofia grega e os mais abastados jovens viajavam para a Grécia ou estudavam com os filósofos trazidos a Roma. A Grécia já havia produzido muito conteúdo filosófico, e os romanos tenderiam ao ecletismo, pois havia muita informação para ser digerida. Os escritores romanos limitariam a tradução dos gregos e é justamente nesse ponto que segundo a professora eles pecam por falta de originalidade. Cícero é considerado um dos mais influentes adeptos do ecletismo, pois, há nas suas obras filosóficas a presença das teses da Academia (Platão), do Liceu (Aristóteles), do Jardim (epicuristas) e da Estoá (mais precisamente do estoicismo médio, de Panécio de Rodes).        ´
Cícero não reinventa a roda, ele molda as teorias já existentes e as apresenta a uma sociedade decadente, carente de uma orientação filosófica. Ele adapta os conceitos estóicos aos ideais romanos, ele critica as virtudes passivas de demonstrar indiferença ao perigo e à infelicidade e de evitar o mal, ele destaca a generosidade e a benevolência, demonstrando que tudo que se faz pelo bem privado, está consequentemente ligado ao bem público, ele exalta a ética! O homem de bem que exercita as virtudes estará mais próximo da sabedoria que os demais, e saberá guiar bem a sua família a um padrão de moralidade, e simultaneamente influenciara para o bem a sociedade em que está inserido. A prática das virtudes não deve ser exercida a troco de riqueza e superfluidades, pois, tudo isso passa e são efêmeras, mas ser virtuoso segundo Cícero acarretará uma “recompensa mais estável e de esplendor mais permanente”

Se bem que a melhor recompensa de sua virtude sem mácula seja, para os sábios, a consciência plena de suas boas ações, e se bem que essa virtude divina não deseje estátuas sustentadas por um pouco de chumbo, nem coroas de lauréis efêmeros, aspira, no entanto, a um gênero de recompensa mais estável e de esplendor mais permanente. (Os Pensadores, 1985, p. 353)
             
Conclusão          

            As obras filosóficas de Marco Túlio Cícero é uma das poucas fontes críticas de textos do pensamento helenísticos durante o período imperial, que se propõe refletir sobre os problemas emergenciais de Roma. A decadência social, a crise e disputas políticas tinham no ecletismo um instrumento indispensável para reflexão e busca de soluções para os problemas agudos do império romano, e assim consequentemente alcançar a “tranquilidade da alma”.  Trazendo o ecletismo de Cícero para o nosso contexto social, veremos que a vida privada e pública hoje não se difere daquela época, precisamos refletir melhor sobre a ética ciceroniana, pois, no contexto da física a nossa sociedade encontra-se tão podre quanto o esgoto da grande metrópole romana do período imperial. Brigas partidárias e políticas, cada um defendem suas mentiras como se fosse a verdade, sobre isso disse Arnaldo Jabor “(...) Querem burlar a ética no Conselho de Ética. A situação não é somente política como se fosse um jogo normal entre partidos. Trata-se de um impasse gravíssimo, um desmanche geral. O Brasil está dominado pelos ladrões”. Corrupção está generalizada como um câncer em seu ultimo estágio, vai desde os “gatos” no uso dos serviços públicos aos bilhões guardados nos paraísos fiscais. É bem provável que não conseguimos jamais mudar o presente, mas podemos propor uma nova e eclética educação para o futuro.
             


Referências Bibliográficas

JOYAU, E; G, RIBBECK, Os pensadores. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

REALE, Giovanni; ANTISIERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia pagã antiga, 3. ed. São Paulo: Paulus, 2003.

MONTEAGUDO, Ricardo. Filosofia e paradigma em Cícero. In: XXV Jornada de
Filosofia e Teoria das Ciências Humanas da UNESP – História e Historiografia da
Filosofia. Marília: UNESP, outubro de 2001.

CONEGLIAN, Stella Maris Gesualdo Grenier. Dos Deveres de Marco Túlio Cícero e o Processo Formativo do Cidadão Romano. Universidade Estadual de Maringá - Programa de Pós-Graduação em Educação: Mestrado. Maringá, 2012.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

DE SÁ, Michele Eduarda Brasil. O ecletismo no De Officiis, de Cícero. Revista Mundo Antigo – Ano III, V. 3, N° 05 – Julho – 2014.





[1] Homo novus era, para um patrício, todo e qualquer cidadão que não tivesse na família um magistrado curul (um edil, um pretor, um cônsul ou um Censor) e que aspirasse a carreira política.
[2] Cadeira portátil como meio de transporte, coberta e fechada, sustentada por duas varas compridas que são levadas por dois homens ou dois animais de carga, um à frente e outro atrás
[3] A Rostra (em italiano: Rostri) era uma grande plataforma construída na cidade de Roma, erguida durante os períodos republicano e imperial da cidade.
[4] Frase celebre dita pelo imperador Marco Aurélio na obra cinematográfica Gladiator, dirigido por Ridley Scott, EUA, 2000 configurada com a obra AURÉLIO. Marco "Meditações".
[5]  Michele Eduarda Brasil de Sá - Profa. Dra da UFRJ/UB - Revista Mundo Antigo – Ano III, V. 3, N° 05 – Julho – 2014.

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