quinta-feira, 17 de novembro de 2016


Usarei a minha humanidade para salvar a sua eternidade.

Hipoteticamente se a mulher samaritana perguntasse a Jesus qual seria a proposição que ele usaria para justificar seu ato generoso de se revelar a ela em pleno meio dia no poço de Sicar na cidade de Samaria. Tenho fortes razões para crer que ele lhe diria - usarei a minha humanidade para salvar a sua eternidade.
João 4.4 "E era-lhe necessário passar por Samaria."
Esse versículo revela o quanto organizado Jesus foi e como controlava sua agenda que já era bem cheia e o tempo tão pouco para atender a tantos. Ele estava na Judéia e tinha um compromisso para atender na Galileia, mas antes, porém "era-lhe necessário passar por Samaria". O que é lindo nessa narrativa, e mais surpreendente, é que a revelação, nesse caso especifico, não vem de cima para baixo, mas ela começa em baixo e eleva alma necessitada da mulher para cima, para Deus.  Jesus não se revela à mulher em sua divindade, mas começa o diálogo com ela em sua humanidade (tenho sede): "Dá-me de beber". Como as histórias interessantemente se cruzam, os paradoxos dinamicamente se entrelaçam. Note Jesus tinha uma necessidade humana, matar a sua sede. A mulher tinha uma necessidade espiritual matar a sua sede. Os dois estavam com sede. Jesus muito provavelmente por ter caminhado a manhã inteira pelas terras áridas da palestina. A mulher por ter caminhado uma vida toda e nunca ter encontrado sentido para sua vida.
Será que Jesus a abandonaria por ela estar literalmente no pecado? Ela tentou ser feliz por cinco vezes e levou cinco viradas de costas, tentou ser amada por cinco vezes e por cinco vezes foi rejeitada. Atualmente, mesmo de forma errada, ela buscava de alguma maneira preencher a sua necessidade de amor e felicidade, se encontrava envolvida em um relacionamento extraconjugal. Por gentileza, ao ler o evangelho de João capitulo 4 não esqueça de levar em consideração o contexto histórico, ou seja, a sociedade machista da época.

Pecado (no grego - errar o alvo) Só se erra na vida de duas formas:

1. Quem tenta acertar, mas erra;
2. Quem tem capacidade de acertar, pode acertar, mas erra porque quer errar.

A diferença não está no pecado, mas sim na atitude do pecador. Jesus disse a mulher "você falou a verdade (não tenho marido), você teve cinco maridos, o que você tem agora não é seu", um encontro com a verdade é suficiente para exalar sinceridade. Vale a pena salientar que a mulher não era uma promiscua do tipo – estou revoltada agora vou por para ferver e pegar todo mundo (ela foi casada cinco vezes), ela foi ao altar cinco vezes, toda a cidade de Samaria a conhecia, a vergonha e decepção era parte da sua vida, porque você acha que ela foi ao meio dia, o pior horário do dia, buscar água? Muito provavelmente ela pensava – me expus demais, eu amei só os certinhos e eles fizeram tudo errado comigo, será que esse errado não pode vir ser o certo na minha vida? (Risos) ... que história né?
O ápice da história está no fato de que Jesus não a rejeita, os homens sim, mas Jesus não, mesmo sendo ela pecadora. “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores." (Romanos 5.8) E para provar isso ele começa pela sua humanidade, ele encarna. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (João 1:14) O “Verbo” de Deus veio até nós, o pensamento puro de Deus se manifestou a nós e nos revelou a sua glória, o pai da eternidade se limita ao tempo, as horas, as agendas, a sensação de sede; tudo para nos pegar pelas mãos, olhar nos nossos olhos e dizer "eu compreendo você, eu sei o que é sentir dor, eu sei o que é sentir sede”, venha vamos comigo ao encontro de Deus - Eu sou Deus" e assim Jesus dá novamente aquela mulher todo o sentido de viver, a “água” espiritual e a libertadora felicidade.


Rodrigo Venceslau

sábado, 23 de abril de 2016

ECLETISMO DE CÍCERO PARA UMA SOCIEDADE DECADENTE

Introdução

            A busca pela Ataraxia não para! Encontrar respostas para as importantes questões filosóficas existentes no mundo é um desafio permanente. A maioria desses problemas tiram a paz, e as indagações vagueiam pelas crenças, pelos mitos, e até mesmo pelos caos, tentando dar sentido para a história humana. O que é o homem? Um ser livre? Ele é totalmente responsável por suas escolhas ou segue como, um ser insignificante, um determinismo em suas mais variadas decisões dentro de uma lei natural? Na esfera social e política, qual é o papel do homem? A virtude é a mais essencial importância para prática da vida privada e pública? Qual é o padrão ético da racionalidade nessas circunstâncias? Esses são alguns dos mais variados problemas que permeiam a raça humana desde sempre, que dizem respeito ao destino dos homens. Para tratar sobre esses assuntos os mais brilhantes pensadores nos deixaram um legado que não se pode medir. Verdadeiras riquezas que marcou para sempre a história do ocidente.
Começando pela Gênesis do pensamento ocidental, o gênio helênico, passando pela era clássica: onde foram propostas várias teorias e conceitos, como o mundo das ideias, o conceito de ser, a concepção do Uno enfim, tudo para dar uma explicação transcendental à vida humana. Logo os estudos se encaminharam para as concepções mais naturalistas com as escolas da era helenística, sob forte influência de Platão, Sócrates e Aristóteles, que impôs responsabilidades aos homens ligadas a sua racionalidade. É um período onde as virtudes são extremamente importantes para que se inicie a longa e tão sonhada estrada à “tranquilidade da alma”. São justamente estas virtudes que Marco Túlio Cícero, em latim Marcus Tullius, propõe em suas obras, no período imperial, no momento mais critico da republica romana, período de perturbações, traições, e conspirações, o ecletismo de Cícero não é um pensamento totalmente original, ele pega de cada escola “migalhas” de verdades e se estabelece para além das divergências constituindo assim uma nova forma de pensar.



A vida e o legado de Cícero

            É importante passar pela vida e obras de Cícero para entender o pensamento ciceroniano e mostrar que o autor não está desconectado da realidade, e acima de tudo compreender historicamente e filosoficamente quais foram as suas influencias, das quais cito de forma panorâmica acima e aqui poderemos ver com algumas riquezas de detalhes.

A vida

Segundo Coneglian (2012, p. 42,43 apud HARMSEN; PEREIRA MELO; GIBSON, 1959, 2008, 2010) Marco Túlio Cícero nasceu em, 03 de janeiro de 106 a.C., em Arpino, cidade que estava localizada a 100 quilômetros de Roma, filho de aristocratas da ordem equestre viveu na cidade de Arpino nos finais do século II e princípio do século I a.C, os cidadãos desse pequeno município a principio não tiveram o reconhecimento da sua cidadania romana, o que incomodou grandemente Cícero, isso só ocorreu no ano de 188 a.C., o reconhecimento pela sociedade romana definiu o futuro de Cícero como pensador romano.
Por não ser do grande centro de Roma, sua família tinham hábitos rústicos e simples, e conservavam o tradicional respeito pela memória e as práticas virtuosas romanas ancestrais dos antepassados, o chamado Mos Maiorum (“costume dos antepassados”), partindo desse principio entendemos que Cícero era por educação um conservador, estudou direito civil, foi discípulo de Fedro, o epicurista, em Roma no ano de 91 a.C.. Em 79 a.C., Cícero segue o exemplo de muitos jovens romanos ricos ele se ausenta de Roma e passa por alguns anos no ócio contemplativo na ilha de Rodes, na Grécia.

Em 79, passa seis meses em Atenas, a estudar com Antíoco de Ascalão, adversário de Fílon e chefe da Academia, cujo ensino se esforça para conciliar Platão e Aristóteles com os Estóicos. Freqüenta ao mesmo tempo as escolas epicuristas, levado pelo seu amigo Ático, aí ouve de novo Fedro e escuta Zenão de Sídon. Em Rodes, é discípulo do rhetor Mólon e ouve Posidônio. Difícil seria pedir uma formação filosófica mais variada para este homo novus que se dedicou a esse estudo entre os dezoito e os vinte e oito anos e nunca mais o abandonou de todo. (PEREIRA, 2002, p. 128)

Foram então esses ensinamentos que definiram o estilo ciceroniano nos anos vindouros e por toda a sua vida. Mesmo sendo um homo novus[1] (homem novo). Com muita dedicação e persistência Cícero, foi um filósofo, orador, escritor, advogado e político romano, visto como sendo uma das mentes mais versáteis e uma das figuras mais brilhantes da Roma antiga. Consta sobre a sua morte que, na praia de Caieta, onde possuía um domínio, Cícero estava sendo carregado por seus criados numa liteira[2] perto do mar, para se refazer de suas aflições, quando foi alcançado pelos soldados a mando de Marco Antonio, que o assassinaram em 07 de dezembro de 43 a.C.
A morte apenas não foi o fim do castigo, pois, suas mãos e sua cabeça foram decepados para serem expostos na Rostra[3] em frente ao Fórum Romano, para servir de alerta a qualquer outro que porventura tentasse desafiar o império. Talvez por ter sido um veemente defensor da República e das virtudes para implantação da mesma, ideias contrarias a de seus inimigos, ele foi a única vitima do triunvirato a ser exposta dessa maneira. Contudo há absoluta concordância entre a filosofia de Cícero e a maneira como ele se portou na hora da sua morte. Consta que o próprio Cícero estendeu corajosamente a cabeça a seu carrasco, ao mesmo tempo em que pronunciava estas palavras: “Morra eu na pátria que tantas vezes salvei”. Contava Cícero 63 anos quando morreu, deixando imenso conteúdo textual, filosófico e moral para as gerações vindouras.

O legado

Segundo a obra Os Pensadores (1985, p. 8-10, 17-23). Novas formas de pensar foram impostas ao mundo grego, o cidadão helênico deixa a polis, que conheceu na democracia, conhecimento este que preparava o homem para o exercício da vida política (pensamento platônico). Ao se afastar das preocupações políticas as preocupações agora ficam centralizadas no interior do homem. A filosofia passa ater uma nova característica, pois, agora ela começa a elaborar normas e condutas “universais” para orientar a consciência dos homens. “(...) o problema ético torna-se o centro da especulação de diferentes correntes filosóficas.” As éticas helenísticas se propõem a encontrar o bem no interior dos homens, as virtudes que podem de alguma maneira trazer a sabedoria plena e consequentemente a serenidade da alma, se a Ataraxia for plenamente encontrada pode se dizer então que o individuo chegou ao estado de realização total.
As buscas não param por ai, deixar de lado os conceitos metafísicos é apenas o começo da caminhada, esse, digamos, “novo” caminho traçado pelas escolas helenísticas para encontrar à serenidade interior, parte de uma ideia totalmente racionalista. Ao contrario do propunha a era clássica, os epicuristas e estóicos, “fazem da ciência sobre a natureza das coisas a base para suas construções morais”, e cada uma das correntes helenísticas, tinham uma forma diferente, mas sobre tudo racional de propor a busca pela “tranquilidade da alma”, vejamos alguns de seus conceitos:

·         O cinismo: a felicidade pode ser “não possuir nada que possa ser perdido.” Essa filosofia de vida, coincide com a "liberdade": quanto mais se eliminam as necessidades supérfluas, mais se é livre. Portanto feliz é não ser escravo das paixões e prazeres do mundo;
·         Os epicuristas e o “jardim”: a exposição da vida acarretará as perturbações da alma. Para os epicuristas, a discrição total é uma blindagem da alma. Quanto menos se aparece mais livre estará das mazelas do mundo;
·         O estoicismo: uma das características é que o sábio saberá ler as representações do mundo (phantasia). Assim a felicidade se consistira em estar de acordo com a razão, ou seja, de acordo com a natureza;
·         O ceticismo: para ser feliz descartem a ideia da física e da lógica. Suspendam o juízo. Para o ceticismo acadêmico ao suspender o juízo a verdade é impossível ser achada. Para os pirrônicos mesmo suspendendo o juízo continuam a procura da verdade.

Percebemos então na medida em que estudamos quanto mais próximo estivermos do estoicismo de origem, mais veremos uma tendência socrática com uma pitada de cinismo.  De igual modo, quanto mais nos afastamos do estoicismo de origem, mais eclética e neoplatônica ela fica. É justamente nesse ultimo momento que surge então o ecletismo de Cícero, mais uma das filosofias autônomas, despregadas do tronco original, da antiga sabedoria, mais um novo rumo que tomara o conhecimento. Para Reale na História da Filosofia (2003, p. 307), a mesma importância que Filon e Antioco tiveram ao representar o ecletismo na Grécia, Cicero teve como representante do ecletismo em Roma. Ele deixa um importante legado de numerosas obras filosóficas que foram escritas por ele no ócio contemplativo e final da sua vida.

Em 64 a.C., escreveu os Paradoxa Stoicorum; em 45 a.C., os Academica, que nos chegaram só parcialmente. De 45 a.C. C também o De finibus bonorum et malorum. Em 44 a.C. foram publicadas as Tusculanae disputationes e o De natura deorum; ainda em 44 a.C. foi escrito o De officiis. A estas obras se agregam ainda: De fato, De divinatione, Cato maior de senectute e Laelius de amicitia, e também as obras politicas De re publica e De legibus. Do De re publica chegaram-nos os primeiros dois livros incompletos, fragmentos do 111, do IV, do V e grande parte do livro VI, que ainda na antiguidade teve vida authoma, sob o titulo de Somnium Scipionis. (REALE, 2003, p. 307).



Consta também que Cícero chegou a ser influenciado e contemporâneo de Lucrécio, e acredita-se que ele chegou a publicar a obra (Sobre a Natureza), obra do poeta Lucrécio. Cícero ao longo de sua vida desenvolveu uma boa amizade e se tornou discípulo de epicuristas, estóicos, peripatéticos, e acadêmicos. Dessa forma então ele extrai de cada escola algumas ideias e compõe suas obras, eis o motivo do conceito ecletismo, que se tornou importante pela criação de um vocabulário filosófico latino. Apesar de o latim ter sido uma língua de uso corrente e pobre semanticamente, Cícero a inaugura como uma língua filosófica e nela publica basicamente todas as suas obras. E é assim que a filosofia grega se insere na cultura romana, e depois em todo o ocidente.

“Era uma vez um sonho chamado Roma”[4] sua História e Decadência

No apogeu de seu poder, o império romano era vasto, a população mundial da época vivia e morria sobre a lei e o domínio dos césares. Roma vivia uma contradição de realidades, por um lado segundo Monteagudo (2002, p. 54 apud CONSTANT, 1985) esses foram um dos períodos da história humana particularmente fascinante, pois, foram de fundamental importância o brilho e os valores deixados para a posteridade. É o momento que marca o auge da República Romana, o estabelecimento do Império, tendo como imperador Óctavio Augusto Cesar em 27 a.C. Historicamente a Terceira Guerra Punica em 146 a.C. representou o fim de toda força capaz de desafiar Roma em todo o mundo. Por outro lado, a história marca também outra realidade, a queda de Roma, ela se esfacelava, a tão sonhada Roma já não era mais a mesma, os problemas políticos e sociais a cercavam como um leão embravecido na arena, os espetáculos no coliseu de certa maneira acalmava os ânimos populares, que se distraiam enquanto o sangue jorrava das vitimas do entretenimento. Era o fim da República para a tristeza daqueles que viam nela a esperança de um governo justo e virtuoso. De maneira que sobrepujou definitivamente a “liberdade antiga”.
            É nesse solo de incertezas que Cícero de forma inspiradora, e com um tom de esperança refaz o caminho para a busca da Ataraxia, em suas mais diversas obras carregadas com um forte conteúdo moral e filosófico adquiridos pela cultura grega e pela educação romana que certamente recebeu, ele tem intuições felizes e agudas sobre os problemas particulares, e de forma especial se dedica nas questões morais. Sendo assim para se conseguir a serenidade da alma, o autodomínio, objetivo de toda reflexão filosófica, a filosofia se divide e articulam em três partes:
1.    Lógica: permitira distinguir quais as formas de conhecimento são verdadeiras e quais são as falsas;
2.    Física: mostra a verdadeira estrutura na qual está inserida a realidade humana;
3.    Ética: a chave para abrir as portas da felicidade.

Ecletismo de Cícero para uma Sociedade Decadente

            A professora de Sá[5] (2014, p. 146, 147 apud HOWATSON; OLLERO; ABBAGNANO, 1989, 1979, 2007), esclarece que após a grande campanha de extensão territorial romana e domínio da Macedônia, a Grécia, e Ásia Menor, passaram então a ter contato com a literatura, arte e toda filosofia grega e os mais abastados jovens viajavam para a Grécia ou estudavam com os filósofos trazidos a Roma. A Grécia já havia produzido muito conteúdo filosófico, e os romanos tenderiam ao ecletismo, pois havia muita informação para ser digerida. Os escritores romanos limitariam a tradução dos gregos e é justamente nesse ponto que segundo a professora eles pecam por falta de originalidade. Cícero é considerado um dos mais influentes adeptos do ecletismo, pois, há nas suas obras filosóficas a presença das teses da Academia (Platão), do Liceu (Aristóteles), do Jardim (epicuristas) e da Estoá (mais precisamente do estoicismo médio, de Panécio de Rodes).        ´
Cícero não reinventa a roda, ele molda as teorias já existentes e as apresenta a uma sociedade decadente, carente de uma orientação filosófica. Ele adapta os conceitos estóicos aos ideais romanos, ele critica as virtudes passivas de demonstrar indiferença ao perigo e à infelicidade e de evitar o mal, ele destaca a generosidade e a benevolência, demonstrando que tudo que se faz pelo bem privado, está consequentemente ligado ao bem público, ele exalta a ética! O homem de bem que exercita as virtudes estará mais próximo da sabedoria que os demais, e saberá guiar bem a sua família a um padrão de moralidade, e simultaneamente influenciara para o bem a sociedade em que está inserido. A prática das virtudes não deve ser exercida a troco de riqueza e superfluidades, pois, tudo isso passa e são efêmeras, mas ser virtuoso segundo Cícero acarretará uma “recompensa mais estável e de esplendor mais permanente”

Se bem que a melhor recompensa de sua virtude sem mácula seja, para os sábios, a consciência plena de suas boas ações, e se bem que essa virtude divina não deseje estátuas sustentadas por um pouco de chumbo, nem coroas de lauréis efêmeros, aspira, no entanto, a um gênero de recompensa mais estável e de esplendor mais permanente. (Os Pensadores, 1985, p. 353)
             
Conclusão          

            As obras filosóficas de Marco Túlio Cícero é uma das poucas fontes críticas de textos do pensamento helenísticos durante o período imperial, que se propõe refletir sobre os problemas emergenciais de Roma. A decadência social, a crise e disputas políticas tinham no ecletismo um instrumento indispensável para reflexão e busca de soluções para os problemas agudos do império romano, e assim consequentemente alcançar a “tranquilidade da alma”.  Trazendo o ecletismo de Cícero para o nosso contexto social, veremos que a vida privada e pública hoje não se difere daquela época, precisamos refletir melhor sobre a ética ciceroniana, pois, no contexto da física a nossa sociedade encontra-se tão podre quanto o esgoto da grande metrópole romana do período imperial. Brigas partidárias e políticas, cada um defendem suas mentiras como se fosse a verdade, sobre isso disse Arnaldo Jabor “(...) Querem burlar a ética no Conselho de Ética. A situação não é somente política como se fosse um jogo normal entre partidos. Trata-se de um impasse gravíssimo, um desmanche geral. O Brasil está dominado pelos ladrões”. Corrupção está generalizada como um câncer em seu ultimo estágio, vai desde os “gatos” no uso dos serviços públicos aos bilhões guardados nos paraísos fiscais. É bem provável que não conseguimos jamais mudar o presente, mas podemos propor uma nova e eclética educação para o futuro.
             


Referências Bibliográficas

JOYAU, E; G, RIBBECK, Os pensadores. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

REALE, Giovanni; ANTISIERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia pagã antiga, 3. ed. São Paulo: Paulus, 2003.

MONTEAGUDO, Ricardo. Filosofia e paradigma em Cícero. In: XXV Jornada de
Filosofia e Teoria das Ciências Humanas da UNESP – História e Historiografia da
Filosofia. Marília: UNESP, outubro de 2001.

CONEGLIAN, Stella Maris Gesualdo Grenier. Dos Deveres de Marco Túlio Cícero e o Processo Formativo do Cidadão Romano. Universidade Estadual de Maringá - Programa de Pós-Graduação em Educação: Mestrado. Maringá, 2012.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

DE SÁ, Michele Eduarda Brasil. O ecletismo no De Officiis, de Cícero. Revista Mundo Antigo – Ano III, V. 3, N° 05 – Julho – 2014.





[1] Homo novus era, para um patrício, todo e qualquer cidadão que não tivesse na família um magistrado curul (um edil, um pretor, um cônsul ou um Censor) e que aspirasse a carreira política.
[2] Cadeira portátil como meio de transporte, coberta e fechada, sustentada por duas varas compridas que são levadas por dois homens ou dois animais de carga, um à frente e outro atrás
[3] A Rostra (em italiano: Rostri) era uma grande plataforma construída na cidade de Roma, erguida durante os períodos republicano e imperial da cidade.
[4] Frase celebre dita pelo imperador Marco Aurélio na obra cinematográfica Gladiator, dirigido por Ridley Scott, EUA, 2000 configurada com a obra AURÉLIO. Marco "Meditações".
[5]  Michele Eduarda Brasil de Sá - Profa. Dra da UFRJ/UB - Revista Mundo Antigo – Ano III, V. 3, N° 05 – Julho – 2014.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Sobre a Internet - Umberto Eco

"As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis" - ao jornalLa Stampa

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O destino

"Os Estóicos bem afirmaram com certeza que todas as coisas ocorrem por fado, servindo-se do seguinte exemplo: um cão  que está  amarrado a um carro, se quiser segui-lo, é puxado e o segue, fazendo necessariamente aquilo que também  faz por sua vontade; se, ao contrário, não  quiser segui-lo, sera obrigado, de toda forma, a fazê-lo. A mesma coisa na verdade ocorre com os homens. Mesmo que não queiram seguir [o Destino], serão em todo caso obrigados a chegar ao que foi estabelecido pelo fado." Sêneca  dirá , traduzindo um verso de Cleanto com sentença lapidar: "Ducunt volentem fata, nolentem trahunt" ( "O destino  guia quem o aceita, e arrasta quem o rejeita"). Giovanni Reale p. 286 História da Filosofia

sábado, 9 de janeiro de 2016

A CARTA ACERCA DA TOLERÂNCIA

       John Locke, filósofo inglês e ideólogo do liberalismo, do século XVII, sendo considerado o principal representante do empirismo britânico e um dos principais teóricos do contrato social. Locke escreveu o Ensaio acerca do Entendimento Humano, onde desenvolveu sua teoria sobre a origem e a natureza do conhecimento. Suas ideias ajudaram a derrubar o absolutismo na Inglaterra. Locke dizia que todos os homens, ao nascer, tinham direitos naturais - direito à vida, à liberdade e à propriedade. Para garantir esses direitos naturais, os homens haviam criado governos. Se esses governos, contudo, não respeitassem a vida, a liberdade e a propriedade, o povo tinha o direito de se revoltar contra eles. As pessoas podiam contestar um governo injusto e não eram obrigadas a aceitar suas decisões. Dedicou-se também à filosofia política. No Primeiro Tratado sobre o Governo Civil, critica a tradição que afirmava o direito divino dos reis, declarando que a vida política é uma invenção humana, completamente independente das questões divinas.
A carta acerca da tolerância de John Locke nos remete a um período de dois extremos de radicalismo de um lado inquisição por parte dos católicos, contra reforma, e de outro lado protestantes ortodoxos, especialmente calvinistas puritanos. De maneira semelhante os dois grupos alardeavam sobre a ortodoxia da sua fé, Locke mostra que todo homem é ortodoxo por si mesmo. Esses “adjetivos” revelam a intenção dos homens para alcançar o poder e o domínio do que à essência do verdadeiro cristianismo. Foi um período bem complicado. Enquanto um lado ostentava sua pompa exterior; o outro lado de forma não menos pretensiosa estava a favor do domínio eclesiástico e do exercício da fé através da força, mas Locke começa abordando que o verdadeiro papel daqueles que dizem ser religiosos segundo o cristianismo, não é obrigar as pessoas pela força ou pela espada a acreditarem em uma doutrina qualquer, mas sim regular a vida dos homens segundo a virtude e a piedade. Devem abandonar seus vícios, seus orgulhos, e luxuria. Buscar santidade para a vida, pureza de conduta, benignidade e brandura de espirito, pois de outra forma será em vão se dizer cristão.
Locke paira sobre a reflexão de que quem for displicente com a sua própria salvação não deveria ficar extremamente preocupado com a salvação dos outros, pois, dificilmente persuadirá o público acerca da sua necessidade de salvação. Ele esclarece que ninguém pelas suas forças, por maiores que sejam, pode tornar outras pessoas cristãs, se não tiver abraçado a religião cristã em seu próprio coração. Defende a superioridade do amor, e da fé que age não pela força. Lutero se libertou com a frase, "(...) o justo viverá da fé".  Ele apela à consciência dos que promovem a austeridade religiosa, bem como dos que indulgentemente amam seus próprios vícios prontos a agirem pela salvação alheia em detrimento as suas próprias. De certa maneira ele critica duramente a atitude violenta da inquisição, bem como a valoração orgulhosa dos ortodoxos. “Qual das facções opostas acerca destas questões é a mais correta, qual delas é culpada de cisma ou heresia - a dos que dominam ou a dos que se submetem -, tudo isso será, finalmente, revelado, quando a causa de sua separação for julgada.” (Carta Acerca da Tolerância p.2).          
As divisões consequentes da falta de tolerância, contribuem para obstrução da salvação das almas, bem como os vícios e luxúrias expressamente condenados por Locke na sua carta e pelo evangelho puro e simples. Nesse aspecto aqueles que discordam veementemente dos que não concordam com suas opiniões doutrinarias, também, não devem tolerar os vícios morais que não condizem em nenhum momento com a fé cristã, e se assim agem tanto um como o outro fica claro que o objetivo é outro reino, e não o reino de Deus. Se de fato esses religiosos estivessem verdadeiramente interessados na salvação das almas dos homens, eles deveriam seguir os passos daquele que é o comandante da salvação humana, daquele que é o perfeito exemplo do Príncipe da Paz.
A igreja, segundo Locke é uma comunidade de homens livres, que a ela se agregam por opção voluntária e não por herança, pois, conforme afirma: “ninguém nasceu membro de uma igreja qualquer”, e a razão de sua filiação a ela se dá por acreditar ter encontrado a verdadeira religião e “a esperança de salvação” e nela permanece até quando desejar. Não há impedimento nenhum a igreja ter suas leis, pois elas existem para impor a ordem dos cultos. E ela não pertence a ninguém em particular, mas a própria sociedade constituída de homens livres. Ele não questiona a autoridade apostólica, mas explica que foi uma instituição normatizada pelos mesmos ao longo da história da igreja. Mostra que Jesus prometeu estar entre dois ou três que em seu nome se reunisse de forma sincera. Locke relembra as discordâncias que sempre houve nas lideranças eclesiásticas nos facultando a oportunidade de que como homens livres podemos fazer nossas escolhas a uma igreja de nossa preferência.
A tolerância em assuntos religiosos está evidente para Locke no evangelho e com razão é patético que os homens sejam tão cegos diante dessa verdade. Ele não condena o orgulho e ambição de uns, a paixão a impiedade e o cuidado não caridoso de outros. Para ele esses assuntos não podem ser extirpados da esfera humana. “os homens são de má fé”. A carta esclarece que o conflito intolerante dessa era obscura está longe de ser apenas entres os cristãos. Locke se opõe ao casamento entre a igreja e o estado. A inclinação interesseira do magistrado e legislador (politico) para os assuntos religiosos provam que as suas consequências são tão más e perversas, quanto à violência cometida pelos que se diziam serem os defensores da igreja. Por esse motivo foi importante distinguir entre as funções do estado e da religião, para demarcar os verdadeiros limites entre a sociedade e igreja.
A carta acerca da tolerância defende a imparcialidade do estado na criação das suas leis uniformes. A promoção para a sociedade do direito a vida, a saúde, a prosperidade, a segurança e defesa das suas posses. O estado precisa promover a paz entres as pessoas e trabalhar para a manutenção da mesma. Não cabe ao estado, nem a quaisquer outros homens, o cuidado das almas das pessoas. A salvação segundo se propõe é pela fé e não pela força. Ao estado é dado o poder da espada, da coerção. A relação entre estado e Igreja deve ser imparcial, o estado não tem o poder de interferir nas relações eclesiásticas da igreja. Somente sobre os seus membros enquanto cidadãos civis. Nem a Igreja adquiriu o poder da espada para ser coerciva. A responsabilidade das almas dos homens está sobre eles mesmos e não sobre o estado. Assim como o estado não pode impedir o individuo se tornar rico ou pobre, ou deixar de cuidar da sua saúde, da mesma maneira, o estado não pode impedir o individuo crer ou deixar de acreditar em algum tipo de doutrina. Fica provado que Não é dever do estado cuidar das almas dos homens. A separação do que é civil e eclesiástico, quanto ao exercício da autoridade, é fundamental , para Locke, para se viabilizar ambiente de tolerância.
Portanto a A Carta acerca da Tolerância condena os termos pejorativos, e estigmatizador, hereges e cismáticos, aos que se opõem a religião, seja em sua exegese, seja em sua forma de culto. Locke argumenta que as Sagradas Escrituras não é referencial absoluto de fé para todos, como é o caso dos maometanos, que reverenciam o Alcorão. Em função da relatividade da expressão religiosa, qualquer ato de discriminação ou qualquer ato de espoliação a partir de opiniões religiosas, não apenas ferem a princípios das Sagradas Escrituras, visto ser desumano, como é ilegal, pois em nada toca ao direito civil. A intolerância que daí advém abriga, na verdade, intenções escusas.





Referências

LOCKE, John. Carta Acerca da Tolerância. 2. ed. São Paulo: Abril cultural, 1978.(Os Pensadores)